Ontem, liguei para um ex-professor que mudou minha vida com sua dedicação, longos papos tarde a fora e posterior amizade que seguiu o curso dos anos até que um dia esbarrou no cotidiano geograficamente incorreto de nossas aspirações ímpares: ele foi construir a vida em uma cidadezinha distante e eu permaneci na selva urbana. Perdem-se números de telefone, mas relações são construídas tijolo a tijolo. Portanto, não é incomum conseguirmos recuperar, depois de anos de espera, o contato com nossos seres queridos somente para descobrir que seguimos de onde paramos: como se a última conversa de botequim (de sala de aula, sorveteria ou de onde seja) ainda estivesse esperando pelo fechar dos temas depois de dez anos de vida vivida. Certamente, vocês conhecem a sensação ampliada pelo fenômeno das redes de relacionamento virtual em que, de repente, não mais que de repente, aparece em forma de mini-ícone fotográfico a imagem da pessoa que há tanto havia desaparecido do convívio na vida que convencionamos chamar de real.
Caraca, maluco! Quanto tempo! Foi uma das primeiras coisas que eu disse. E uma das primeiras coisas que ele disse foi que estava reencontrando muita gente e que um de nossos amigos em comum usara a mesma expressão ao deixar um recado em sua página virtual na rede. Caraca, maluco! Como é bom, depois de tanto estudo, poder encontrar alguém com quem ainda se possa falar assim como forma de aproximação e expressão do quanto se sente falta.
Lembrei-me de imediato de algo que me comentaram uma vez no Movimento Humanista: experimente tirar de sua vida apenas uma pessoa. Uma pessoa qualquer de quem você se lembre. Imagine o rombo que se instaura. Imagine tirar da existência apenas um ser humano com quem você conviveu. Façam o exercício, vamos lá, não se intimidem! Pode ser a moça da padaria ou o grande amor da sua vida. Não importa! Imaginem que apenas uma pessoa não existe mais, nunca existiu, nem virá a existir.
Não fica um vazio? Não fica um não sei que de gosto amargo?
É que as pessoas vivem dentro de nós e nos constituem. Por isso digo que a vida que nos afasta, nos intimida, nos impede muitas vezes de dar atenção às pessoas com quem convivemos é apenas o que se convenciona chamar de real: mas não necessariamente é o "real". Real é essa marca que eu deixo em você e você deixa em mim quer sejamos amigos, familiares, passantes, amantes ou simplesmente anônimos que um dia se esbarraram em uma condução qualquer.
Real é poder, depois de dez anos, conversar com um amigo e perceber que, dentro de nós, dez anos são relativos.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Quem me diz quem sou eu?
Normalmente, eu mesma me digo.
No filme de Richard Linklater, Waking Life, uma teoria é apresentada sobre como construimos nossa personalidade. Uma professora de línguas e uma filósofa conversam em um bar e uma delas diz que a coisa acontece mais ou menos assim: observamos uma foto nossa de quando éramos crianças e sentimos essa necessidade de explicar como é que foi que aquela criança virou quem hoje somos. Por isso, inventamos uma história com início, meio e fim (ainda que fim passageiro, fim de hoje, fim de momento) que explica como foi que viramos isso que hoje cremos ser. Eu acho, inclusive que, mesmo elas, no filme, já estavam citando outra pessoa. Caso esta pessoa esteja lendo e se sinta mortalmente ofendida por não ter sido citada, peço-lhe desculpas! :)
Não sei vocês, mas, por mais que eu tente esconder isso dos demais, a cada dia, ou melhor, a cada instante de acordo com as variações de clima e humor, eu tenho uma história diferente para como a menina quatro-olhos CDF simpática e cheia de sonhos de mudar o mundo que eu fui se converteu em quem eu sou hoje. Pudera, a cada minuto pareço ter uma interpretação diferente sobre esse "quem sou hoje". Eu registro isso dessa forma, tenho essa sensação e, no entanto, quando ouço as pessoas dizerem que somos mutáveis, somos múltiplos ou que cada hora estamos de um jeito...sei lá. Algo me soa errado.
E as pessoas dizem que somos inconstantes há muito tempo - não é uma observação particularmente complicada de se fazer - Shakespeare já dizia isso em seu "Muito Barulho por Nada". Então, será que é isso? Será que nossa vida é mesmo muito barulho por nada? E se é, que "nada" é esse que valorizamos tanto a ponto de lutarmos a vida inteira por ele?
Não sei não, acho que cada um pode interpretar de um jeito. Porém, se me disserem que somos nossos empregos (podemos perde-los amanhã), nossos sonhos (podem não se concretizar), nosso dinheiro (podemos ficar sem, ou já estamos) e que isso vale a pena: parece tão pouquinho! Por outro lado, se me disserem que são os valores, os ideais, as coisas que construimos, bem, isso é bastante flexível, não?
Eu acho que sou a maneira como me relaciono com os demais. Estou feliz quando estou com os demais. Não é uma felicidade do tipo com fogos de artifício, a la filme romântico e etc. Mas essa aí eu cansei de buscar e nunca encontrei. Já sacrifiquei muita coisa boa em nome da eterna busca pelo final hollywoodiano.
Tô achando que eu sou em relação, sou com os outros e que a maneira como os trato diz mais sobre mim do que qualquer horóscopo, oráculo, grande feito ou causo de pescador que eu possa inventar sobre mim mesma.
Só um palpite, no entanto. :)
No filme de Richard Linklater, Waking Life, uma teoria é apresentada sobre como construimos nossa personalidade. Uma professora de línguas e uma filósofa conversam em um bar e uma delas diz que a coisa acontece mais ou menos assim: observamos uma foto nossa de quando éramos crianças e sentimos essa necessidade de explicar como é que foi que aquela criança virou quem hoje somos. Por isso, inventamos uma história com início, meio e fim (ainda que fim passageiro, fim de hoje, fim de momento) que explica como foi que viramos isso que hoje cremos ser. Eu acho, inclusive que, mesmo elas, no filme, já estavam citando outra pessoa. Caso esta pessoa esteja lendo e se sinta mortalmente ofendida por não ter sido citada, peço-lhe desculpas! :)
Não sei vocês, mas, por mais que eu tente esconder isso dos demais, a cada dia, ou melhor, a cada instante de acordo com as variações de clima e humor, eu tenho uma história diferente para como a menina quatro-olhos CDF simpática e cheia de sonhos de mudar o mundo que eu fui se converteu em quem eu sou hoje. Pudera, a cada minuto pareço ter uma interpretação diferente sobre esse "quem sou hoje". Eu registro isso dessa forma, tenho essa sensação e, no entanto, quando ouço as pessoas dizerem que somos mutáveis, somos múltiplos ou que cada hora estamos de um jeito...sei lá. Algo me soa errado.
E as pessoas dizem que somos inconstantes há muito tempo - não é uma observação particularmente complicada de se fazer - Shakespeare já dizia isso em seu "Muito Barulho por Nada". Então, será que é isso? Será que nossa vida é mesmo muito barulho por nada? E se é, que "nada" é esse que valorizamos tanto a ponto de lutarmos a vida inteira por ele?
Não sei não, acho que cada um pode interpretar de um jeito. Porém, se me disserem que somos nossos empregos (podemos perde-los amanhã), nossos sonhos (podem não se concretizar), nosso dinheiro (podemos ficar sem, ou já estamos) e que isso vale a pena: parece tão pouquinho! Por outro lado, se me disserem que são os valores, os ideais, as coisas que construimos, bem, isso é bastante flexível, não?
Eu acho que sou a maneira como me relaciono com os demais. Estou feliz quando estou com os demais. Não é uma felicidade do tipo com fogos de artifício, a la filme romântico e etc. Mas essa aí eu cansei de buscar e nunca encontrei. Já sacrifiquei muita coisa boa em nome da eterna busca pelo final hollywoodiano.
Tô achando que eu sou em relação, sou com os outros e que a maneira como os trato diz mais sobre mim do que qualquer horóscopo, oráculo, grande feito ou causo de pescador que eu possa inventar sobre mim mesma.
Só um palpite, no entanto. :)
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