Ela fez um exercício de auto-conhecimento e descobriu que as coisas das quais hoje reclama, ou melhor, as coisas que fazem parte de sua vida - coisas e pessoas, relacionamentos e problemas - foram todas queridas em algum momento. Desejadas, todas elas. Foi um momento assustador esse, em que ela descobriu que no passado quis seu presente e no futuro queria um presente que, ao chegar, já estará ultrapassado. Será um ULTRA-PASSADO.
É muito interessante pesquisar nossa relação com o tempo. O tempo é uma crença, uma vivência e não somente um conceito frio e objetivo. Nada há de objetivo no tempo e às vezes é preciso que ele (ou nós) enlouqueça (enlouqueçamos), saia do controle (que nós nos percamos em milhões de coisas a fazer), para que comecemos a entender (de leve) como o tempo é mesmo relativo.
Não sei vocês, mas eu tenho uma mania de testar os limites de minha própria capacidade de fazer coisas, muitas vezes impondo a mim mesma rotinas, tarefas, obrigações que são ótimas em si, mas desproporcionadas no tempo. Especialmente nesta era, em que perdemos a capacidade de ter fé no futuro, eu só vejo presente e a memória/imaginação de futuro passam a ser vias de profundo sofrimento, ao invés de serem aliadas ao aprendizado e à experimentação.
Quem tem tempo de ter tempo para ter tempo?
Quem é que, hoje, tem tempo de experimentar?
Não me venham com desculpas: ninguém tem tempo de ser e somente ser.
Nem mesmo os desempregados (sob forte pressão para sobrevivência e para manter a dignidade)
Nem mesmo os milionários (perdidos sem saber o que fazer da vida, em meio a atividades supostamente lúdicas que não preenchem o vazio interno)
Nem mesmo...
Certo: não podemos generalizar. Mas algo me diz que muitos se identificarão em diferentes níveis com o que eu escrevo agora e com a sensação de eterna academia: a-vida-que-não-pode-parar.
Quase não parei para escrever esse texto.
Tenho mil obrigações e justificativas.
Vejo vocês quando tiver tempo para ter tempo e espero que esse dia chegue logo!
sábado, 31 de maio de 2008
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