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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Justiça ou toda casa tem um tribunal

Vocês podem estar estranhando o fato de que, na minha casa, exista um tribunal. Pois bem, ele existe e acredito que, na maioria das casas, deva acontecer o mesmo. Pode não ser um espaço físico, ser mais um espaço mental, mas está lá. Se bem que alguns cômodos da casa podem ficar identificados como os lugares em que se debate os rumos da família, de uma pessoa, de um vizinho...Pode ser uma varanda, uma sala de estar, uma sala de jantar ao redor da mesa, qualquer momento em que a família esteja reunida, os batalhões vão tomando posições, cada tenente lustra sua farda o melhor que pode e exibe as insígnias de filho mais velho, ou mãe batalhadora, ou dona-de-casa perfeita e preparam-se para o veredicto.

Há também tribunais em mesas de bar, em reuniões escolares, em filas de ônibus...Para agregar algumas pessoas ou mesmo quebrar um silêncio incômodo, nada como um julgamento. Algo do tipo: "Nossa! Que falta de educação!" ou "Esse motorista acha que está carregando gado?", coisas assim que, com certeza, a maioria de nós já ouviu por aí em algum momento. Pode ser um comentário em relação a algum "caso", como em: "Você viu o que aquela mãe fez com o filhinho de 2 anos?" ou "Viu como a fulaninha-famosa engordou, deve estar se esbaldando?/Viu como a fulaninha-famosa emagreceu, deve estar anoréxica?". Coisas assim...

Justiça é um conceito muito interessante. Pressupõe que existam culpados e inocentes e pressupõe que alguém saia ganhando ao ser violento com outra pessoa. Essa semana, por exemplo, um policial atirou em um menino de 8 anos que saia para comprar pão às 7 da manhã na favela da Maré. Ele viu o policial ao sair de casa e, assustado, voltou correndo pra dentro de casa e bateu a porta. O policial atirou contra a porta. O menino morreu. Estive com a mãe desse menino e parentes de várias vítimas de crimes como esse, hoje, no centro da cidade. Pude ver sua dor. Compartilhei um sentimento de profunda injustiça vivido por essas pessoas e que é fruto de muitas coisas, dentre elas, da política de segurança pública que temos hoje na cidade do Rio de Janeiro e que é, na verdade, uma política de insegurança, feita para proteger poucos e ineficaz em todos os sentidos, pois não chega realmente a proteger ninguém...

Quando combatemos a violência com violência, geramos níveis cada vez mais alarmantes de violência. Não é possível apagar o fogo com mais fogo.

O que às vezes fica encoberto por esse sentimento de injustiça é que a violência física é uma expressão (última) de tipos de violência muito mais pervasivos e cruéis. Há uma violência política: não vivemos em uma democracia real, não há comunicação entre governantes e governados (nem há justificativa para isso dada a tecnologia de baixo custo disponibilizada sob forma de Internet). Não existem políticos que representem as pessoas: tanto porque os eleitos são aqueles que vendem sua imagem e suas promessas como estrelas da TV, como porque as próprias pessoas ainda temem/resistem a organizarem-se para levar a esses políticos suas reais prioridades. Isso é violência política. Sim, é uma forma de violência.

Há uma violência racial, extremamente escamoteada pela imagem faceira e praiana de nossa cidade, que só pode ser compreendida por aqueles que a vivem na pele. Há uma violência religiosa: em que pessoas são julgadas cotidianamente pelo tipo de Deus em que escolheram acreditar, pela forma como se relacionam com o que há de mais sagrado para elas. Isso é violência.

Há uma violência econômica. Porque exigir-se dinheiro para que qualquer ser humano tenha acesso ao mínimo de dignidade e gerar uma situação em que milhões de pessoas não têm acesso a tal dignidade é violência. O fato de sermos coagidos a permanecer escravos, abaixarmos a cabeça para algumas pessoas que podem decidir nosso destino profissional, não termos dinheiro para manter os serviços mínimos em nossa casa e que a única forma de ter acesso a algo além do básico seja endividar-se até a morte é uma violência das mais cruéis.

Há uma violência moral: das pessoas que dizem uma coisa e fazem outra. Há uma violência psicológica: quando quero impor minhas verdades, condutas e formas de ver o mundo como as únicas corretas.

Há uma violência interna: quando eu mesmo me maltrato, eu mesmo tomo decisões que sei que são prejudiciais a minha pessoa. Não acredito em mim mesmo e, portanto, como poderia acreditar nos demais? Não me vejo digno e não consigo lidar comigo mesmo.

Por isso eu comecei dizendo que em toda casa existe um tribunal...Dentro dos corações dos homens, existem tribunais...Todos somos violentos e reconhecer isso é o princípio do reconhecimento de que podemos mudar.

A justiça que eu quero é aquela em que eu e meus irmãos paremos de nos julgar porque isso já não seja necessário. Enquanto isso não é possível, temos sim que nos manifestar em relação a tudo o que é falho nesse sistema de valores e em relação às tragédias que nos acompanham dia-a-dia: não podemos ficar calados!

Porém, tampouco podemos esquecer que isso não é o bastante. O que queremos é uma sociedade de paz e não-violência ativa e para isso só uma nova educação, baseada em um novo paradigma, com a construção de novos valores de sustentação sociais, poderão modificar alguma coisa.

É preciso que, um dia, nós sintamos tanto nojo, tanto mal estar físico, diante de uma cena de violência (seja ela física, econômica, moral, racial, psicológica, religiosa ou interna) que não possamos deixá-la passar em branco. Que essas cenas façam mal a todos nós, porque todos somos parte de uma mesma Humanidade.

É preciso transformar tribunais em oficinas de conscientização...

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